

Prova de Fogo

Pedro Bandeira



        Editor: Fernando Paixo
        Editora Assistente: Carmen Lucia Campos
        Suplemento de leitura: Shirley Aparecida de Souza





        Antes de escrever este texto fiquei pensando na maneira mais interessante para apresentar o Gil. Acabei resolvendo ser natural e descrev-lo sem rodeios.
        Gil  um garoto quase da sua idade. Voc deve conhecer muitos iguais a ele: no  muito bom nas coisas que faz, nem muito ruim... no  alto, nem baixo...
nem magro, nem gordo... o prprio Pedro Bandeira diz que Gil  o tpico "cara mdio", como tantos que existem em nosso mundo e no conseguem se destacar no que fazem,
passando quase sempre despercebidos.
        O nosso personagem tem um problema maior ainda: est apaixonado e no consegue chamar a ateno da garota de quem gosta.
        Mas como todo mundo pode ser algum especial, bastando aproveitar as oportunidades para mostrar aos outros o que se  na realidade, Gil resolveu tentar.
Ele nem imaginava a prova pela qual teria que passar!
        Voc vai se envolver com a aventura deste livro e, com certeza, ficar surpreso quando ele acabar porque a emoo, o perigo e o ritmo o levaro ao final
da histria num piscar de olhos.
        O Editor


        s vezes, a gente se sente apenas um nmero sem importncia no meio do sufoco que  a vida. Nesta histria, eu quis discutir aquele momento em que algum
 submetido a uma prova de fogo e tem de provar que no  apenas um nmero.

        Pedro Bandeira

        Sumrio
        1. Onde est Pris?
        2. Flores amarelas
        3. Na manso dos Bradford
        4. Pior do que um seqestro?
        5. O soco no rosto
        6. A agonia da espera
        7. Quanto vale um garotinho?
        8. A metade de uma cebola
        9. O que, como, quem e onde
        10. O sono dos anjos
        11. Talco e laxante
        12. They aren't kidding
        13. Deliciosos sanduches!
        14. O ltimo rato
        15. Uma ou duas pessoas

      Onde est Pris?


        A aula era de Qumica. Matria nova para a turma que iniciava o colegial.
        O professor havia pendurado na frente do quadro-negro um cartaz grande, cheio de casinhas de vrias cores, como o mapa de uma colmia.
        - Todos os elementos qumicos esto aqui, pessoal. Esta  a famosa tabela peridica dos elementos, criada em 1860 pelo russo Mendeleiev...
        Cotovelos na carteira, Gil apoiava o queixo nos punhos fechados. Qumica, Fsica, Biologia, tantas matrias novas! Assim como a Matemtica. Tudo diferente
do primeiro grau. Tudo mais que no primeiro grau...
        Debaixo dos cotovelos de Gil, o fichrio aberto. Debaixo do fichrio, a prova de Matemtica que acabara de ser entregue na aula anterior, corrigida pela
professora.x Tinha sido uma prova de avaliao de conhecimentos bsicos. Tudo que os alunos deveriam dominar para que pudessem acompanhar a matria nova que vinha
pela frente. Foi o que a professora tinha dito, antes daquela prova infernal, de surpresa. E logo na segunda aula do ano!
        Escrito em vermelho no alto da pgina, ali estava o conceito que Gil tinha recebido na prova: mdio.
        Mdio!
        Na primeira carteira, na fila do gargarejo, dava para ver a nuca do Olavo. O conceito do Olavo tinha sido timo, naturalmente. O Olavo era sempre o melhor
aluno da classe, junto com a Marlene. Durante todo o primeiro grau, os dois disputaram as melhores notas da turma como se fossem dois boxeadores lutando pelo ttulo
mundial.
        Gil jamais tinha participado dessa disputa. Ele sempre estivera entre os mdios... Aqueles que vo passando e pronto.
        Ao lado do garoto, estava o Marcelo. O melhor jogador de futebol da escola. Aquele que desequilibrava qualquer partida. Aquele que era sempre o primeiro
a ser escolhido na hora de se dividirem os times no recreio.
        Nunca algum escolheu Gil em primeiro lugar. Tambm no era o ltimo a ser escolhido. Ficava l pelo meio...
        Do outro lado da classe, sentava-se o lvaro, o lder da fanfarra da escola. O po. O gato. O xod das menininhas da sexta srie at o colegial. J tinha
at feito um comercial para a tev! Um de pasta de dentes, o maior sucesso do horrio nobre. Bom, pelo menos para as fanzocas do lvaro.
        J o Gil no. Nenhuma garota jamais demonstrara qualquer interesse particular em relao a ele.
        Tambm ningum virava a cara, porque espinhas ele no tinha. Bem, s uns poucos cravos, como todo mundo.
        Tambm jamais algum professor havia botado o Gil para fora da classe. No era conversador nem bagunceiro, como a turma do fundo.
        No pertencia nem  turma da pesada, o pessoal das motos e das aprontaes, nem  turma das notas sempre azuis, nem ao pessoal riquinho, que se reunia nos
fins de semana nos clubes da moda.
        Era comum que, no final de cada ano escolar, os professores soubessem de cor os nomes da maioria dos alunos da classe. Tambm, em relao a alguns, tinham
passado o ano gritando "Fulano, fica quieto!" ou "Sicrano, pare de conversar!" Tinham de acabar decorando esses nomes, no ?
        Acostumavam-se tambm com aqueles que sempre lideravam os trabalhos em grupo, faziam as melhores perguntas nos debates e tiravam as melhores notas.
        No caso de Gil, at o ltimo dia de aula, era comum algum professor perguntar:
        - Como  mesmo o seu nome, menino?
        Gil era assim. No era bonito nem feio, gordo nem magro, alto nem baixo, tmido nem falante. Gil era mdio.
        - ... durante os prximos trs anos, vamos nos familiarizar muito com essa tabela - continuava o professor. - Com as iniciais tiradas de seus nomes latinos,
aqui esto todos os elementos que, isolados ou combinados, compem toda a matria existente na face da Terra...
        As palavras entravam pelos ouvidos de Gil como uma msica estranha, pouco mais inteligvel do que o zumbido das abelhas que habitariam aquela estranha colmeia
colorida pendurada no quadro-negro.
        A expresso era de aluno atento s palavras do professor, mas os olhos s enxergavam a carteira  frente da sua. A carteira onde deveria estar o lindo traseirinho
de Pris.
        "Por que ser que ela faltou hoje?"
        Pris sempre passava por Gil como se o rapaz no estivesse ali. Respondia quando ele lhe perguntava alguma coisa e fim de papo. Tambm,' toda vez que ele
criava coragem para falar com a menina, acabava fazendo perguntinhas bobas:
        - Hoje tem aula de Desenho Geomtrico, Pris. Voc trouxe o compasso?
        -  claro que eu trouxe.
        E o papo morria sem ter comeado. Pelo menos, Se ela tivesse esquecido o compasso, ele poderia emprestar-lhe o dele e... e quem sabe ali no comeasse uma
coisa entre os dois? Pensando nisso, Gil sempre trazia dois compassos na mochila, mas Pris nunca esquecia de trazer o dela.
        "Por que ser que Pris faltou hoje?"
        Gil tinha a impresso de que poderia girar algum boto para apressar a voz do professor, como quando a gente aperta "FF" no toca-fitas. Assim, ele poderia
fazer chegar logo o recreio e a turma morreria de rir, ouvindo o professor de Qumica falar com voz de ratinho de desenho animado.
        "Por que ser que ela faltou hoje, hein?"

* * *

        Na hora de costume, o recreio acabou chegando e Gil encontrou uma ficha telefnica na mochila.
        Correu para o orelho que ficava no ptio do colgio e ligou para a casa de Pris...
        O telefone tocou, tocou e tocou. Ningum atendeu.
        "Bom, os pais dela trabalham o dia inteiro. Mas, se ela est doente, por que no ficou em casa?"
        Recuperou a ficha e correu para a cerca de azalias que separava as crianas do maternal.
        Sabia a quem procurar. Um pequeno de cachinhos louros e sardento como uma banana madura.
        O pequeno Mark Bradford no estava no meio do grupo de fedelhinhos de polegar na boca.
        Voltou para o ptio e discou para a casa dos Bradford.
        Atendeu uma voz de homem. Nervosa e com um forte sotaque americano.
        - Hello!
        - Eu... eu queria falar com a Pris... - Quem quer falar com ela?
        - Ningum... quer dizer, eu...
        - O que voc quer com ela?
        - Nada... deixa pra l...
        Gil desligou. Algo, em seu ntimo, soava como um aviso. Alguma coisa no estava bem.



      2. Flores amarelas

        "Preciso ir at l..."
        O garoto conseguiu driblar o bedel encarregado de impedir que algum aluno sasse da escola sem autorizao e pulou facilmente o muro da frente. A casa dos
americanos ficava a poucos quarteires da escola. Quase correndo, logo chegou  alameda onde morava o pequeno Mark Bradford.
        O pequeno Mark. O nico filho do casal Bradford, americanos que garantiam algum ganho para Pris com um costume raro no Brasil: usar uma jovem estudante para
tomar conta do filho quando o casal sai de casa  noite. Baby sitter, diziam eles.
         claro que a criana tinha a sua bab, chamada nanny pelo americaninho, mas a gorducha saa sempre antes do jantar. Desse modo, quando o casal tinha de
comparecer s recepes noturnas que a Posio social do pai exigia, Pris levava seus cadernos e ia fazer as lies no imenso casaro dos Bradford.
        - Mark dorme to bem... - dizia Pris para todo mundo. - No d nenhum trabalho.
        Um dinheirinho fcil de ganhar.
        Muitas vezes, quando o casal pretendia voltar tarde da noite, Pris dormia no casaro, em um apartamento de hspedes ao lado do quarto do menino. De manh,
ia direto para a escola com o lourinho.
        "Acho que ela dormiu l esta noite", pensava Gil. "Mas por que nem ela nem Mark foram  escola?"
        A casa ficava numa alameda linda, como so as ruas dos bairros ricos. Sibipirunas, accias e ips formavam um dossel sobre o asfalto e misturavam-se s rvores
e arbustos sofisticados dos jardins das residncias. O vero j estava no fim e milhes de ptalas amarelas forravam o cho, quela hora da manh.
        Fazia um friozinho pequeno, gostoso, e a atmosfera era cheirosa e fresca, como se algum tivesse usado um grande spray de perfume francs para borrifar a
paisagem.
        Encarapitado no alto de um poste, um trabalhador fazia algum conserto nos fios.
        A frente do casaro, uma perua grande, bastante malhada pelo uso, com chapa particular. Estava to enfeitada de pequeninas flores amarelas quanto o calamento.
        Um Mercedes novinho estava estacionado no corredor da garagem da casa dos Bradford, com a capota ainda mida do orvalho da noite e salpicada de florzinhas
roxas cadas das quaresmeiras do jardim.
        Durante um longo momento, Gil permaneceu parado em frente s grades do casaro dos Bradford. No apertou a campainha.
        "O que ter acontecido? Preciso pensar..."
        Tinha corrido at ali sem um plano especial. Corrido para Pris. Mas agora tinha de respirar com calma, para tentar formar uma hiptese que pudesse explicar
a sensao desagradvel que a voz do americano ao telefone lhe causara.
        Gil gostava de Pris. Muito. Mas, at agora, no tinha sido nem um pouco correspondido. Se nada de diferente tivesse acontecido, na certa a menina ia ach-lo
ridculo por ter vindo quela hora da manh  casa dos americanos.
        - Quem te deu licena de vir aqui? - perguntaria a garota. - Por que  que voc tem de se meter, Gil?
        - Porque eu gosto de voc, Pris... - responderia ele.
        Responderia? Responderia nada! Ele no teria coragem.
        Saindo por uma porta lateral da manso, surgiu uma mulher.
        A gorda bab do pequeno Mark. A nanny. Seu rosto estava vermelho. Parecia ter chorado. Dirigiu se para o amplo terreno dos fundos da casa, onde ficavam as
construes de servio.
        Gil percebeu algum movimento, talvez algum espiando por uma fresta das cortinas.
        Em seguida, um homem de terno apareceu pela mesma porta lateral por onde surgira a bab e comeou a correr em sua direo.
        O garoto pensou em recuar e desaparecer dali mas, naquele momento, sentiu um cutuco duro em suas costelas.
        Parou, gelado.
        O homem que vinha de dentro apontava-lhe um revlver, fazendo mira bem entre os olhos do garoto:
        - Paradinho a! Nem pense em mexer um msculo!



      3. Na manso dos Bradford

        Mexer um msculo seria a ltima coisa em que Gil pensaria, com o cano de um revlver apontado para a cabea e outro espetando-lhe as costelas.
        Com esforo, o homem de dentro abriu o pesado porto de ferro, que girou fazendo um barulho que exigia graxa h muito tempo.
        O sujeito que chegara por trs torceu brutalmente seu brao s costas, contra a mochila. - Ai, o que  isso? Eu s estava passando... - Quieto!
        Com pressa, o sujeito que abrira o porto agarrou-lhe a gola do bluso e empurrou-o para a frente.
        Em segundos, Gil estava dentro do casaro, onde nunca tinha pisado antes.
        Foi arrastado para o salo do andar trreo, quase podendo sentir a maciez dos tapetes atravs das solas dos tnis.
        Sentado na beirada de um sof, no centro da sala mal  vontade, como se aquela no fosse a sua prpria casa, estava o casal de americanos.
        Gil nunca vira pessoalmente o famoso J. J. Bradford, o poderoso presidente de uma multinacional de alimentos. Mas sabia quem era o homem, pois aquele rosto
cheio de sardas era conhecido de quem lia as colunas sociais e os cadernos de economia dos jornais.
        Plido como cera, J. J. Bradford enlaava os ombros da esposa, tentando confort-la.
        A um canto, o garoto reconheceu uma linda silhueta, encolhida e perturbada. Pris! A menina estava a uns dez metros, mas Gil pde perceber que seu lindo rostinho
estava machucado.
        O homem que o agarrava pela gola empurrou-o para a frente.
        - Dacosta, encontramos esse moleque bisbilhotando l fora!
        O rapaz deu de cara com um grandalho, de terno surrado, que o olhava, surpreso.
        Arrastado como um criminoso, o rapaz foi atirado de bruos em um sof.
        O sujeito continuou segurando seus braos nas costas, quase o esmagando com o peso do corpo.
        O outro comeou a revist-lo, com mos brutais.
        Sua mochila foi esvaziada. Livros e cadernos iram sobre o tapete. At os dois compassos...
        O sujeito revirou os cadernos, quase rasgando as folhas.
        Procurava o qu? Seus desenhos do rostinho de Pris?
        A senhora Bradford levantou-se e avanou em direo a Gil, ansiosa. O marido a conteve, sussurrando alguma coisa.
        A arma encostou-se  testa de Gil e uma voz ameaadora perguntou:
        - Fale, garoto! O que voc estava espiando? Quem  voc?
        Quem falava era o homem grande.
        Contorcido sobre o sof, Gil tentou encar-lo. - Est olhando o qu, moleque? O que voc quer? Sabe de alguma coisa? Fale!
        Os braos torcidos nas costas comearam a doer e Gil fez uma careta. Olhou vesgo para o negro tubo de metal encostado em sua testa e respondeu, timidamente:
        - Meu nome  Gil. Sou da mesma classe de Pris. Vim para falar com ela...
        - Pris? A garota? O que voc quer com ela? O que voc sabe?
        Do outro lado da sala, a voz de Pris veio em socorro de Gil:
        - Ele  um colega da minha classe, doutor Dacosta. No tem nada a ver com tudo isto. Pode larg-lo. Por favor...
        O homem que a menina chamara de doutor Dacosta fez um sinal com a cabea. A arma foi abaixada e o aperto em Gil afrouxou-se.
        O rapaz ajeitou-se no lugar, sem desviar os olhos do homem com o revlver.
        Pris o tinha defendido! A ele, Gil!
        - Como  mesmo o seu nome? - perguntou Dacosta.
        - Gil...
        - Foi voc que ligou para c ainda h pouco?
        - Fui eu sim... eu queria saber se tudo estava bem com a Pris...
        - Pois fique sabendo, garoto, que voc no tinha nada de vir meter o bedelho pr aqui. Agora no vai poder sair. Ningum sai desta casa! Junte os trecos
e fique muito quietinho a, com sua colega. Nem um pio, hem?
        Gil nem piou nem falou.
        Abaixou-se para juntar seus pertences espalhados pelo tapete.
        O doutor Dacosta voltou para perto do sof e ficou cochichando com o casal de americanos.
        Os trs pareciam hipnotizados por um aparelho telefnico colocado na mesinha de centro.
        A mulher soluou.



      4. Pior do que um seqestro?


        Uma onda de calor encostou-se ao garoto. Pris! Vinha ajud-lo a recolher os cadernos espalhados.
        Gil pegou um deles, amarrotado pelas mos do policial que o revistara. Ficou alisando o caderno e olhando para a menina, com o rabo dos olhos. Na linda face
direita, havia uma mancha grande, arroxeada.
        - Por que voc apareceu por aqui? - perguntou Pris, num sussurro, com impacincia. - O que  que voc tinha de fazer aqui? No podia ter escolhido uma ocasio
pior...
        O que poderia ser pior para Gil do que o desprezo de Pris?
        - Pior do que um seqestro, Pris?
        A menina arregalou os olhos:
        - Seqestro? Como sabe que houve um seqestro? O garoto baixou os olhos, ocupando-se com os cadernos, a enfi-los na mochila:
        -  fcil adivinhar, Pris. Nem voc nem o pequeno Mark apareceram no colgio hoje...
        - E da? Como voc poderia adivinhar que...
        - Voc e Mark podem faltar s aulas quando quiserem, Pris. S que eu liguei para sua casa e no havia ningum.
        - Para a minha casa? Como  que voc sabe o meu telefone?
        - Eu... bem, lembra daquela vez que eu pedi o nmero do seu telefone por causa daquele trabalho de Estudos Sociais?
        - No.
        - , voc esqueceu. Eu acabei achando o inmero esquecido no fim de um velho caderno e: resolvi ligar. E que eu queria perguntar se voc ainda tinha as anotaes
de Matemtica do ano passado. E pensei: se ela est doente, deve ficar descansando em casa, no? Depois, liguei para c e o americano atendeu, com uma voz nervosa.
        - Para c tambm?! Como  que voc...?
        - Nada. Era s por causa das anotaes de Matemtica. Eu sabia que ontem era noite de tomar conta do Mark.
        - Voc anda sabendo muita coisa, Gil...
        O rapaz desconversou, insistindo com mais firmeza nas razes de sua desconfiana:
        - Na certa, voc dormiria aqui e depois iria direto para a escola levando o menino.
        - E... eu tinha mesmo de dormir aqui esta noite...
        - Assim - continuou Gil -, se voc tivesse adoecido, ou se o doentinho fosse o Mark, voc deveria estar aqui, no ? Resolvi ento dar um Pulinho s pra
saber o que estava havendo. E a nica coisa que faltava era uma placa na porta: "Ateno - nesta casa foi seqestrado um garotinho chamado Mark..."
        - O qu? Como assim?
        - H uma perua estacionada na frente da casa. Tem chapa de carro particular, mas s a Polcia usaria um carro como aquele. Voc no voltou para casa e a
bab do Mark apareceu chorando. Voc esteve ontem  noite aqui, sozinha com o menino, e eu a encontro machucada, com a marca de um soco no rosto... Est doendo muito?
        - Muito? No muito...
        - timo. Mas tem mais: a voz do J. J. estava nervosssima quando atendeu o meu telefonema. Esperava um contato com os seqestradores, na certa. E, agora,
o tal Doutor Dacosta perguntou se eu sei de alguma coisa. O que mais  preciso para concluir que o pequeno Mark foi seqestrado?
        Pris no respondeu. Olhou fixamente para o rapaz, como se pela primeira vez tivesse prestado ateno nele. Gil a surpreendera, no havia dvida nenhuma.
        - Bem, Gil... eu... eu estava aqui, estudando Biologia quando...
        Confusa, a menina tentou enfiar um dos cadernos na mochila do rapaz. O caderno abriu-se e uma das pginas revelou um desenho a lpis, um lindo rosto adolescente,
muito bem desenhado.
        - El! Esta sou eu!
        Num repelo, Gil tomou o caderno das mos de Pris.
        - Voc? Que nada! E um desenho qualquer... - Ora, Gil! Voc nunca me disse que...
        - Eu j lhe disse tudo o que pude deduzir. Agora  a sua vez de entrar com os detalhes, Pris.
        A menina disps-se a contar tudo o que j relatara aos policiais. Repetiu tudo com esforo, como se fosse doloroso para ela relembrar os acontecimentos da
noite anterior.
        Sem interromper nem uma vez, Gil ouviu atentamente a narrativa de Pris, anotando mentalmente cada detalhe.



      5. O soco no rosto


        Pris j conhecia o casaro dos Bradford como se fosse sua prpria casa. E o pequeno Mark j conhecia sua amiga Pris como se a garota fosse sua irm mais
velha. Os dois se gostavam como se realmente fossem irmos.
        Mark s tinha trs anos. Mas entendia normalmente duas lnguas. O ingls dos pais e o portugus aprendido com os empregados, com a televiso e com Pris,
mesmo antes de entrar na escola.
        A menina sabia que, nas noites de "ficar com Mark", sua principal funo seria contar histrias com o garoto no colo, at que o sono o vencesse. A, era
s deixar o pequeno Mark abraado ao seu ursinho e descer para o salo.

* * *

        O relgio marcava dez horas quando Pris apagou as luzes da sala e acomodou-se no sofazinho de sempre. Acendeu um abajur e abriu a pasta de Biologia sabendo
que tinha todo o tempo de que precisasse. O garotinho nunca acordava durante a noite e no dava trabalho nenhum.
        Aquela hora, o salo deserto parecia ainda maior. Todo o apartamento onde a menina morava caberia ali com bastante folga. Sua nica companhia eram as duas
estatuetas gregas, que ladeavam a entrada do corredor, nos fundos, como dois guardas e mrmore.
        A matria, sobre a classificao dos rpteis, funcionou como um calmante. No meio das cobras e os lagartos, Pris adormeceu no sof.
        Algum rudo que perturbara o sossego daquela arreda residencial fez com que a menina
despertasse.
        Sentou-se no sof, esfregando os olhos.
        Mas, antes que pudesse pr as idias em ordem, a luz do abajur apagou-se.
        Pris sobressaltou-se. No com o escuro, mas com um estalido que veio dos fundos da casa, da direo da cozinha, junto com o apagar do abajur.
        - Quem est a?
        A voz de Pris saiu assustada e ela encolheu-se no sofazinho.
        A luz da rua entrava pelas frestas das cortinas, Iluminando vagamente os mveis e as estatuetas, mo a dar-lhes vida. Uma vida fantasmagrica, irreal.
        Nenhum estalido mais.
        "Ora, Pris! Deixe de bobagem!", pensou a menina tentando afastar o prprio medo. "A luz vai voltar, j, j. Deixe de imaginar coisas!"
        Aos poucos, seus olhos acostumaram-se melhor  escurido e ela pensou em procurar uma vela na cozinha. Mas a escurido era total, para aqueles lados. E tinha
sido de l que ela ouvira o estalido.
        Naquele instante, Pris percebeu que no estava s.
        Foi como se uma das estatuetas de mrmore do salo tomasse vida e se fizesse ver, por um relance, vinda da cozinha.
        Durante um largo momento, nenhum rudo, nenhuma sombra mais.
        De repente, a menina sentiu que havia algum atrs de si. Levantou-se do sof no momento em que um par de mos fortes a agarrava. Debateu-se, conseguiu dar
uma cotovelada e ouviu um "uf!".
        Algum se aproximava pela frente. Pris debateu-se no escuro e suas mos bateram na altura do rosto da sombra.
        Um gemido surdo, acompanhado de um palavro. Uma pancada no rosto. As sombras comearam a girar. Pris sentiu as pernas dormentes.
        Caiu sobre o sof. Quis gritar, mas seu agressor segurava-lhe o pescoo, sufocando-a. A menina percebeu outras sombras que subiam as escadas.
        Levavam uma lanterna de mo.
        Talvez fossem duas, ou trs pessoas. Logo voltavam e Pris percebeu que uma delas trazia alguma coisa no colo. Um embrulho grande...
        - Mark! No! - conseguiu gritar. - Quieta!
        A sombra que a agarrava golpeou de novo. No mesmo lugar.
        Tudo ficou ainda mais escuro, mas Pris no desfaleceu. Notou que seu agressor saa apressado, acompanhando os outros.

* * *

        Um grande silncio sucedeu  tragdia.
        A menina fez um esforo sobre-humano para levantar-se.
        Tateou em direo  cozinha. Encontrou fsforos sobre a pia e acendeu um. J estava no terceiro quando conseguiu encontrar o quadro de luz.
        Como ela calculara. A chave tinha sido desligada. Ligou-a de novo e ouviu novamente o clic. Acendeu o interruptor da cozinha.
        Na parede de azulejos, o relgio marcava quatro horas.
        Suportando a dor que lhe queimava o rosto, Pris subiu as escadas, em direo ao quarto de Mark, em direo ao que j sabia que haveria de encontrar.
        Sobre a caminha desfeita, somente o ursinho de pelcia.

* * *

        A voz do doutor Dacosta alteou-se um pouco. Falava andando em volta da sala, sem olhar para ningum, como se interrogasse as paredes:
        - O senhor tem certeza de que me contou tudo, senhor Bradford? Tem certeza de que no sabe de mais nada que possa nos ajudar?
        -  claro que tenho certeza! - respondeu com segurana o pai, com um tom de voz de quem no est acostumado a ter suas declaraes postas em dvida.
        - O senhor no est com medo, senhor Bradford? - insistiu o investigador. - No est tentando proteger os seqestradores com medo de que eles faam alguma
coisa ao seu filho?
        - No estou protegendo ningum! S quero meu filho de volta!



      6. A agonia da espera


        Pris saiu do quarto do menino apavorada.
        - Meu Deus! Seqestraram Mark!
        Sabia o nmero do telefone onde os Bradford tinham ido jantar. Desceu correndo as escadas, em busca do telefone.
        O aparelho tocou, antes que a menina chegasse a ele.
        Atendeu, sfrega:
        -  a Pris?
        A menina ouviu o sotaque de J. J. Bradford.
        - Meu filho? O que houve com meu filho?
        Pris comeou a contar o que acontecera, mas foi interrompida pelo homem:
        - My God! Ento  verdade! Algum telefonou para c, dizendo que Mark estava em poder deles. My God!
        - Mister Bradford, eu... - comeou a menina.
        - Voc fique a, quieta, Pris. Eu e minha mulher voltaremos num instante. No ligue para ningum nem faa nada!

* * *

        "Os bandidos sabiam at o telefone do lugar onde estavam os pais do menino!", pensou Gil, ouvindo a continuao da narrativa de Pris. "Que organizao!"

* * *

        Os quinze minutos que a menina esperou pareceram os mais longos de sua vida, at o Mercedes de J. J. Bradford encostar na lateral da casa, em vez de rumar
para a garagem, como faria numa ocasio normal.
        Dona Nancy, a me de Mark, estava trmula como se tivesse frio, mas tentava segurar o choro. O americano suava, de olhos esbugalhados, olhando para a menina,
como se ela pudesse ajud-los.
        Ouviram rapidamente Pris contar o que tinha acontecido e J. J. balanou a cabea, desorientado.
        - Os seqestradores disseram para eu esperar em casa por outro telefonema...
        Por mais um quarto de hora, os trs ficaram ali, no grande salo, ao lado do aparelho telefnico, sem ousar dizer mais nada.
        Eram quatro e meia em ponto quando o telefone tocou.
        - Hello... Sim, eu fao tudo o que vocs quiserem, mas no maltratem o meu filho... No! Por favor, no desligue!
        Lvido, reps o aparelho sobre a mesa.
        - O que foi, Jake? - implorou dona Nancy. - O que eles disseram?
        O marido passou o brao pelos ombros da mulher.
        - Disseram para esperar... Vo ligar de novo... - Esperar?! Ai, meu Deus!
        - Escute, querida - J. J. falava com segurana, encarando a esposa. - No falei com a polcia at agora;; mas acho que no h outra alternativa...
        - Isso nunca! - dona Nancy quase gritava, agarrando o palet do marido. - E se eles fizerem algum mal ao Mark?
        - Vamos explicar o caso a eles, querida. A polcia est acostumada com essas coisas. Podem vir para c  paisana, sem chamar a ateno. O que no podemos
 continuar nessa agonia!
        J. J. fez a ligao.
        - Hello.., por favor, quero comunicar um seqestro... - parou de falar, como se esperasse que a ligao fosse transferida para outra pessoa. - Hello? Diviso
Anti Seqestro? Sim, meu filho foi seqestrado! Meu nome ...
        Pris ouviu-o explicar com detalhes tudo o que tinha acontecido e terminar implorando:
        - Por favor, venham para c o mais rpido possvel. Mas sem estardalhao. Se os bandidos saberem que ns chamamos a polcia, podem matar meu filho!

* * *

        O relgio ainda no marcava cinco horas da manh quando trs policiais chegaram ao porto do palacete com a discrio pedida pelo pai de Mark.
        Se nem de dentro de casa dava para ouvir sua chegada, provavelmente tinham enganado tambm os seqestradores.
        Quem dava as ordens era o doutor Dacosta, delegado especializado em
seqestros.

* * *

        - A, foi a minha vez - continuava Pris. - O doutor Dacosta me fez repetir mil vezes o que tinha acontecido durante a noite e a madrugada. Eram quatro horas
da manh, eu disse para ele, e o homem ficou insistindo se eram quatro e cinco ou cinco para as quatro...

* * *

        A manh nublada comeava a surgir, quando Pris ouviu um barulho de chaves, na porta da cozinha.
        - Deve ser a nanny do Mark - disse dona Nancy. - Quer dizer, a bab do meu filho...
        - Oliveira! - ordenou o delegado Dacosta, para um dos policiais. - Traga essa mulher para c!
        O homem cumpriu a ordem, trazendo pelo brao, meio arrastada, a gorducha bab do americaninho.
        Foi s ouvir as primeiras explicaes rudes do delegado sobre o que tinha acontecido para que a moa comeasse um ataque histrico.
        - O Marquinho? No, no pode ser!

* * *

        - Os outros empregados da casa tambm devem estar chegando, no ? - perguntou Dacosta, depois que, a custo, a bab acalmara-se e fora para a cozinha, em
busca de gua com acar. - Quantos so, senhor Bradford?
        - S a cozinheira, a arrumadeira e o jardineiro...
        - Carlo! - ordenou Dacosta para o outro policial. - V para a calada em frente e fique de olho. Quando esses empregados chegarem, dispense todos. Diga
que o senhor Bradford deu a eles o dia de folga. No quero mais ningum aqui para atrapalhar!
        Voltou-se para os outros:
        - E vocs: ningum bote a cara para fora. No quero que os seqestradores saibam que a polcia j est na jogada. Precisamos ter cuidado!





      7. Quanto vale um garotinho?


        A narrativa de Pris tinha terminado.
        - E isso foi tudo, Gil... At agora no houve outra comunicao dos seqestradores. Passamos esse tempo todo aqui, esperando...
        Gil notou que a menina estava morrendo de sono.
        "Talvez o cansao at seja bom para ela... Ela precisa relaxar... Coitadinha!"
        Teve vontade de oferecer-lhe o ombro, para que a menina dormisse apoiada nele. No ousou, porm.
        Olhou um relgio elegante, em cima de um mvel. Eram nove e quarenta e cinco da manh. Seus pais e os pais de Pris trabalhavam o dia inteiro. At as sete
horas da noite no dariam por falta de nenhum dos dois. Estavam presos naquela casa, junto com os pais do menino, a bab e os policiais, at que...
        Nesse momento, a campainha do telefone ecoou pela sala e calou todas as bocas.
        O fone foi levantado do gancho pelo pai do pequeno Mark, mas a ansiedade de todos naquele salo acompanhou seu gesto.
        - Alo! - a voz de J. J. Bradford soou baixo, como se o americano temesse o que ia ouvir.
        O aparelho j estava conectado a um gravador, e o tal Oliveira acionou o boto "liga". Sem rudo, a fita comeou a girar.
        - Sim, sou eu... O que vocs fizeram com...
        J. J. Bradford falava com mais sotaque do que de costume.
        - Sim, estou ouvindo... No farei mais perguntas... Quero saber apenas se meu filho est bem... Por favor, no faam nada a ele... - calou-se um pouco, ouvindo.
- O qu? Tudo isso? Mas  muito! Como  que eu vou... My God! No, no, por favor, no!!!
        J. J. Bradford reps o fone no gancho. As sardas ressaltavam-se na palidez do rosto. Dona Nancy o abraou, ansiosa.
        Dacosta apertou uma tecla de um telefone celular e perguntou:
        - Como ? Deu para localizar a ligao? No? Droga!
        O policial fez voltar a fita que gravara toda a conversa. Mas, antes que pudessem ouvi-la, J. J. Bradford informou, numa voz desolada:
        - Eles... Eles querem um milho de dlares para cada quilo de peso do meu filho...

* * *

        Um silncio apavorado envolveu a todos. Foi Dacosta quem o rompeu:
        - Um milho de dlares por quilo? Que histria  essa?
        J. J. Bradford escondeu o rosto nas mos:
        - Quando eu disse que aquela quantia era demais, o outro riu e respondeu que poderia at fazer um desconto, mas que me devolveria s os quilinhos do Mark
que correspondessem ao dinheiro que eu entregasse...
        A me do menino soltou um grito e comeou a chorar desesperadamente.
        - Mark! Meu Mark! Ai, Deus!
        Da cozinha, veio a bab de rosto vermelho. Abraou-se  senhora e ajudou-a a levantar-se.
        - Venha, dona Nancy. Venha comigo. Vou fazer um ch para a senhora. Tudo vai acabar bem, esteja certa...
        As duas sumiram pela porta da cozinha.
        Dacosta e Oliveira sentaram-se perto do gravador, para ouvir a conversa que o seqestrador tivera com o pai do menino seqestrado.
        - Demnios! - blasfemava o delegado. - Essa gente devia acabar no inferno!

* * *

        J. J. Bradford estava afundado na poltrona. Depois de ouvir a gravao, Dacosta andava nervoso, de um lado para outro.
        - E como  que o senhor vai conseguir esse dinheiro?
        Gil apertou o brao de Pris.
        O americano esfregou os cabelos, penteando e despenteando-os com as mos.
        -  muito dinheiro. Ningum tem tudo isso!
        Dacosta ia e voltava, gesticulando:
        - Mas estamos sem nenhuma pista! Nenhuma pista!
        - Vou ligar para o meu irmo, doutor Dacosta - decidiu J. J. - Ele  o diretor tesoureiro da empresa. S ele pode levantar essa quantia!
        - Seu irmo, hem? Podemos confiar nele?
        -  claro que sim, detetive.  meu irmo e...
        - E ele tem esse dinheiro todo?
        -  claro que no - respondeu J. J., pegando o aparelho. - Mas, com meu aval, ele pode levantar emprstimos nos bancos em meu nome. Depois, com meu filho
de volta, no me importo se tiver de me desfazer de todo o meu patrimnio para arranjar o dinheiro...
        - Ligue para o celular dele - sugeriu o delegado.
        - ... - concordou j. J. -  a nica maneira de localiz-lo com certeza. Nem sei se meu irmo est na empresa a esta hora...

* * *

        Quinze minutos depois, Gil espiava pela fresta das cortinas quando viu aproximar-se do porto um belssimo BMW.
        O policial que estava de sentinela conferenciou um instante com o motorista do carro e abriu o porto.
        O BMW, tambm coberto por florzinhas amarelas, estacionou atrs do Mercedes.
        Um motorista baixinho, de uniforme, saiu apressado para abrir a porta para o patro, mas Norman Bradford j estava fora, correndo para a entrada da casa.
        Era um americano alto, magro, com sardas como o irmo mais velho. Ficou furioso quando soube do que estava acontecendo e gritou com J. J. como se o prprio
pai fosse o culpado pelo seqestro do menino:
        - My nephew! Bastards! I told you we shouldn't come to this savage country! Savages! Kidnappers!
        - Fale portugus! - ordenou Dacosta rispidamente.
        O americano olhou para o delegado como se ainda no tivesse percebido a presena de um homem grande como aquele. E falou em um portugus perfeito:
        - Desculpe, delegado. Mas  que ns jamais podamos imaginar que uma coisa horrvel como essa pudesse acontecer! Desculpe se...
        - No precisa ser educado, senhor Norman. No temos tempo para isso. Precisamos decidir qual ser nosso prximo passo - voltou-se para J. J. - Como  que
o senhor pode arranjar esse dinheiro todo em to pouco tempo?
        O delegado, J. J. e Norman Bradford comearam a debater as providncias que podiam ser tomadas para conseguir rapidamente o dinheiro do resgate.
        Gil espiou pela fresta da cortina. Longe, o policial que Pris dissera chamar-se Carlo, e que lhe espetara o cano da pistola nas costas, abria a porta do
camburo. O motorista baixinho, que estivera o tempo todo ao lado do BMW de Norman Bradford, sumiu pela entrada de servio da casa.
        O rapaz continuava com aquela sensao estranha, que tinha comeado quando ouvira a voz do pai de Mark ao telefone.
        A sensao parecia piorar.



      8. A metade de uma cebola


        Gil olhou timidamente para o investigador Oliveira e sorriu:
        - Vou tomar gua. O senhor quer que eu lhe traga um copo?
        O homem, carrancudo, virou a cara e no respondeu.
        - Vem comigo, Pris?
        Os dois jovens foram para a cozinha, cruzando com Nancy Bradford na passagem entre as duas esttuas baixas de mrmore.
        A mulher, mais refeita, juntou-se ao marido, ao delegado e ao cunhado, que continuavam a discutir em voz baixa o que fazer para conseguir o dinheiro at
o fim do dia.
        J. J. pegou o telefone e pediu para falar com "o presidente". Como falava em ingls, devia ser o presidente de alguma empresa ou de algum banco.
        Quando Gil e Pris entraram na copa, o motorista baixinho estava sentado  mesa do caf da manh. Tinha tirado o palet, que agora estava no espaldar da cadeira.
A gorda bab oferecia-lhe um pouco do ch que tinha feito para a patroa.
        O homem no olhou para os dois. Com a mo direita, que exibia um grande anel, levantou o pires e, com a outra, levou a xcara aos lbios, soprando, para
esfriar.
        A bab sorriu timidamente para os jovens, fungando. Seus olhos estavam vermelhos, injetados de sangue.
        O pequeno motorista enfiou o nariz dentro da xcara fumegante.
        Pris levou Gil  geladeira. Serviu dois copos de gua gelada.
        A bab desculpou-se e saiu pela porta de servio.
        O pequeno motorista acariciava um esparadrapo grudado no rosto e no prestava qualquer ateno aos dois amigos.
        Gil bebeu e foi at a pia deixar o copo vazio.
        Torceu o nariz. Perto da torneira, havia a metade de uma cebola. No gostava de cebola. Principalmente crua.

* * *

        Os dois voltaram para a sala.
        O policial Oliveira estava afundado em uma poltrona e nem olhou para o lado deles.
        J. J. falava ao telefone com algum.
        - No quero saber se vocs tm ou no tm todo esse dinheiro em caixa! Mande buscar! Chame um carro forte! Meu irmo vai estar a l pelo meio dia e eu exijo
que toda essa quantia esteja pronta!
        Gil ouviu o clic do telefone e outra vez a voz de J. J.
        - Pronto. Com o Bank of Boston est tudo certo. Vou agora falar com o First National...
        "Hum, pelo jeito, essa negociao toda ainda vai demorar um pouco...", pensou Gil. "Talvez eu ainda tenha tempo..."
        Andando lentamente, Gil chegou ao sof para onde Pris tinha voltado.
        Naquele momento, tinha de fazer tudo aquilo que sempre sonhara para aproximar-se daquela menina to querida. Como por milagre, sua insegurana desaparecera.
O que ele tinha de enfrentar era maior do que o medo que sempre sentira de levar um fora.
        Sentou-se ao lado da garota, bem juntinho, colando-se a ela, como um gato se esfrega na dona,  espera de carinho.
        - Pris, eu preciso de voc...
        A menina voltou o lindo rosto para ele, franzindo as sobrancelhas:
        - O que  isso, Gil? Por que est falando to baixo? Voc acha que essa  hora para uma cantada? Ora, v se te enx...
        O rapaz falava sorrindo, como falam os apaixonados, mas as palavras que dizia no eram de amor.
        - Finja que ns estamos namorando, Pris...
        Fingir?! Ficou louco, Gil?
        - Psiu...  uma questo de vida ou morte, Pris. Confie em mim...
        A garota estava surpresa. Mas alguma coisa lhe dizia que devia confiar no garoto. Fez o jogo dele e sorriu, como se tivesse ouvido um elogio  cor de seus
olhos. Mas o que dizia combinava mais com uma expresso de fria:
        - Voc sempre foi um chato, Gil! O que pretende, agora?
        O rapaz passou o brao pelos ombros da menina e sussurrou em seu ouvido:
        - J descobri tudo...
        - Descobriu tudo? Descobriu o qu?
        - Tudo  tudo, Pris. J sei tudo o que aconteceu, como aconteceu, quem so os culpados e at onde est o Mark...



      9. O que, como, quem e onde


        Pris sorriu, com um tom de desprezo que feria o corao do rapaz. Mas, naquele momento, ele no podia pensar em si, nem em seu orgulho. Havia uma vida em
jogo, talvez mais.
        No demonstrou sua ferida, porm. Continuou representando o namorado. Aquela era a combinao que deveria afastar quaisquer suspeitas, se, por acaso, o detetive
Oliveira, sentado a menos de cinco metros, resolvesse se interessar pela conversa dos dois adolescentes.
        O pouco caso de Pris mostrou-se em palavras:
        - Oh, ento voc agora virou detetive, ? Est bem, se quer bancar o ridculo, esteja  vontade. V l e diga tudo o que sabe para a polcia!
        O rapaz acariciou os lindos cabelos soltos daquela que ele gostaria acariciar de verdade, no numa encenao, mas com o consentimento e o prazer da acariciada.
        - Contar  polcia, Pris? A quem? Ao Dacosta? Ao Oliveira? Ao Carlo, que est l fora? Mas esse  justamente o problema, querida. Esses so os bandidos...
        A expresso da menina estava quase correspondendo aos afagos de Gil. Mas, ao ouvir aquilo, seu olhar retomou o brilho de fria e de desprezo:
        - Por que voc apareceu por aqui, Gil? Numa hora miservel como essa, o que a gente menos precisava era de um menino que gosta de brincar de detetive!
        O que disse era agressivo, mas sua voz continuava baixa, dentro do jogo proposto por Gil.
        - Calma, Pris. Eu no estou brincando. Estamos numa enrascada que voc nem imagina...
        -  claro que eu imagino! Eu...
        - Psiu... Raciocine comigo. Primeiro: lembra-se de ter me dito que os policiais chegaram discretamente, como o pai de Mark tinha pedido, sem fazer nenhum
barulho?
        - Sim, e da?
        - Da que eles no chegaram. Eles j estavam! Voc no ouviu nenhum automvel chegando porque eles ficaram estacionados nesta rua a noite toda!
        - Ora, que besteira, Gil! Como  que eles podiam estar a noite toda aqui? Eles no so policiais de uma ronda comum. So especialistas da Diviso Anti Seqestro!
Como  que eles podiam adivinhar que haveria um seqestro justo aqui, nesta casa?
        - Se eles mesmos fossem os seqestradores, ficava fcil adivinhar...
        - O que  que voc est falando, Gil?
        O rapaz cochichava devagar, como se estivesse namorando, mas sua vontade era disparar tudo o que sabia para a menina como se sua voz fosse
uma metralhadora:
        - Aqui, quase em frente da casa, h uma perua velha, com chapa particular. Daquelas que s a polcia usa. Agora mesmo eu vi o tal Carlo entrando na perua.
Est com a capota coberta de florzinhas amarelas e mida de orvalho. Por baixo, est sequinha, como todos os carros que passaram a noite estacionados nesta rua!
        - Gil! O que voc est dizendo?
        - Voc no achou estranho, Pris, esses policiais ficarem aqui o tempo todo rondando, esperando os telefonemas, discutindo como conseguir o resgate, sem nunca
falar com alguma delegacia e pedir investigaes? Notou que o Dacosta ouviu a gravao do telefonema do seqestrador e nem se preocupou de pedir alguma percia policial
para descobrir de quem  a voz?
        - Mas eu vi as credenciais de polcia deles. Ser que so falsas?
        - No, Pris. So verdadeiras. O que no  verdadeira  a honestidade desses trs...
        - Voc tem visto muito filme policial, Gil! A profisso desses policiais  prender seqestradores! - Esses podem ser daquele tipo de policial que comete
os crimes, em vez de combat-los...
        - Mas, e os telefonemas? Eu mesma vi o senhor
        Bradford ligar para a policia. Como  que eles poderiam...
        Gil cortou, gentilmente:
        - Quando eu cheguei aqui, Pris, havia um homem encarapitado em cima de um poste. Esses bandidos so policiais, mais especialistas que 'qualquer seqestrador.
Aquele sujeito deve ter interceptado o telefone daqui. Quando o senhor Bradford telefonou, o bandido fez a ligao cair provavelmente no celular do Dacosta, ou em
outro aparelho qualquer, atendido por algum de dentro do esquema todo.
        - Mas agora mesmo o senhor Bradford estava ligando para os bancos e...
        - O sujeito em cima do poste pode liberar o telefone quando quiser, Pris.  um tcnico, na certa.
        Pris calou-se. O que Gil dizia no parecia to maluco. E se fosse verdade?
        - Meu Deus, Gil! O que  que a gente vai fazer? Se esse tal sujeito controla o telefone daqui, nem adiantaria a gente tentar falar com a polcia l de cima,
em uma extenso...
        - Temos de agir s ns dois, Pris...
        - S ns dois? Nada disso! Vamos dar um jeito de contar tudo para o senhor Bradford e para o senhor Norman!
        Gil suspirou baixinho.
        - No, Pris. O Dacosta no vai deixar os Bradford sozinhos nem por um momento. E, para o Norman, no adianta falar nada...
        - No adianta? Por qu?
        Gil falou com a segurana de um detetive de livro policial ingls:
        - Porque o Norman  o cabea do seqestro!
        Os olhinhos da menina arregalaram-se:
        - Como?! O prprio tio do Mark"?
        - Sei que parece absurdo, Pris, mas a culpa dele  muito clara. Por que ele seqestrou o prprio sobrinho eu no sei. Mas tenho certeza de que ele  o chefe
dos bandidos. Notou que o Dacosta disse ainda h pouco "No precisa ser educado, senhor Norman"?
        - E o que  que tem isso?
        - Tem que os dois so do esquema! Em nenhum momento, J. J. tinha falado o nome do irmo para ele!
        - E mesmo... Ele nunca fala o nome do Norman. S diz "meu irmo"...
        - E, alm disso, voc no achou estranho que o Dacosta tenha dito para o senhor Bradford ligar para o celular do irmo?
        - Ora, isso no tem a mnima importncia, Gil. Todo mundo tem telefone celular, hoje em dia...
        - Mesmo assim, eu achei estranho esse palpite do Dacosta. Mas a coisa piorou muito quando o tio do Mark chegou.
        - Piorou? O que piorou?
        - Se voc for olhar ali do lado, na entrada de carros, vai ver o Mercedes do senhor Bradford mido de sereno e coberto de florzinhas roxas, da quaresmeira
do jardim. Afinal, o carro est a desde as quatro e pouco da manh, no ? Agora olhe atrs, para o BMW do Norman. Ele est coberto de florzinhas amarelas, das
mesmas rvores da rua!
        - Quer dizer que...
        - Quero dizer que o carro do Norman tambm passou a noite aqui, estacionado nesta alameda!



      10. O sono dos anjos


        Pris sacudiu lentamente a cabea, apalermada com as revelaes do amigo. Como ela no tinha visto tudo aquilo?
        - Gil, que horror! Temos de avisar algum de fora. Quem sabe, se a gente der um bilhete para o motorista do Norman...
        O rapaz quase deu uma gargalhada.
        - Esse  o pior, Pris!
        - O pior? Como assim?
        Com a pontinha dos dedos, Gil tocou delicadamente a marca arroxeada na face direita da menina.
        - Foi ele que fez isso em voc, querida...
        - O motorista? Como voc sabe?
        - No  difcil. Lembra-se que voc me disse que, quando as luzes se apagaram, parecia que aquelas estatuetas do fundo da sala tinham tomado vida? Elas so
exatamente da altura de um homem baixinho e magro como o motorista do Norman...
        A menina no engoliu essa:
        - Agora voc foi longe demais, Gil. Desse jeito, voc vai desconfiar de todos os baixinhos e magros da cidade!
        Gil continuou falando didaticamente, como se explicasse uma equao de Matemtica para um aluno em recuperao:
        - Voc recebeu dois socos desferidos por algum que estava  sua frente, Pris. Os dois na face direita. Assim, esses socos s podem ter sido dados por um
canhoto. Voc notou que o motorista estava agora mesmo, l na copa, tomando ch e segurando a xcara com a mo esquerda?
        Pris teimou:
        - Mesmo assim isso no prova nada. Eu posso ter sido ferida por algum que usou as costas da mo direita para me bater. Sendo socada assim, eu tambm seria
atingida do lado direito, no?
        - E, podia ter sido outra pessoa. Mas, se tivesse sido o motorista, ele no usou as costas da mo direita, tenho certeza. Ele tem um grande anel no anular
da mo direita. Se batesse com as costas daquela mo em voc, haveria um belo arranho feito pelo anel. Mas no foi isso que aconteceu. A marca do seu rosto  resultado
de dois socos, com a mo esquerda fechada.
        - Tudo bem, mas eu ainda digo que pode ter sido qualquer outra pessoa canhota. Ou um destro sem anel, batendo com as costas da mo!
        - O motorista tem um curativo no rosto, Pris. Voc notou? Lembra-se de ter me contado que se debateu quando eles a agarraram e seus braos chocaram-se com
o rosto da sombra que a atacava pela frente? Pelo jeito, voc machucou um pouco o baixinho. Ele teve at de arranjar um esparadrapo!
        - Meu Deus!
        Houve uma breve pausa naquele monte de revelaes.
        Dentro de si, Pris buscava desesperadamente uma sada:
        - Estamos sozinhos, Gil... Com a bab, no adianta falar, porque ela  muito
ingnua...
        - A est o ltimo fio da meada - cortou Gil. - Ingnua nada! A bab est inteirinha dentro do bando de seqestradores!
        Pris teve de fazer um esforo enorme para no gritar com o amigo:
        - Que loucura! A nanny adora o Mark! No viu como ela chorou e se desesperou quando soube que...
        - Voc no sentiu um forte cheiro de cebola, Pris? No notou uma cebola cortada sobre a pia? Por que ela cortaria uma cebola logo de manh? A bab no 
uma grande atriz, querida. Para ficar ostentando essa gorda cara de choro, ela precisou do auxlio de uma cebola fedidssima!
        - Mas isso no faz sentido, Gil!
        - Lembra-se de ter me contado que vocs s notaram a chegada dela quando ouviram sua chave na porta da cozinha? Por que ningum viu a gorducha passar pelo
porto de entrada?
        - Bom, isso  verdade. Mas vai ver ela no foi para casa esta noite. Vai ver dormiu nas dependncias de servio. Vai ver...
        - Lembra-se de ter me contado que, depois que os bandidos saram levando o Mark, um completo silncio envolveu tudo?
        - S-sim...
        - Completo silncio? Como  que um carro de seqestradores, levando um garotinho filho de um milionrio, no saiu por a cantando pneus? Voc no ouviu nem
mesmo o barulho de um carro saindo em primeira mo!
        - Mas, ento, nesse caso, eles fugiram com o Mark a p?
        - No, Pris. Voc teria ouvido o rangido do porto de ferro. Aquele porto  barulhento como ele s!
        Pris baixou ainda mais a voz, assustada com a possibilidade de os bandidos descobrirem que eles sabiam de tudo. O que fariam com os dois?
        - No estou entendendo direito o que a bab tem a ver com toda essa histria, Gil...
        - A bab  o ponto de ligao dentro da casa, Pris. No se lembra de o Dacosta ficar berrando que ningum podia sair daqui? A bab sai o tempo todo pela
porta de servio e vai l para os fundos. E os policiais no falam nada. Por que eles no falam nada, se todo mundo est proibido de sair de casa? E o que ela vai
fazer l atrs tantas vezes?
        - No posso fazer a mnima idia.
        Um ar de triunfo, que a menina nunca vira, iluminava o rosto de Gil:
        - Esse  o ponto culminante, querida: o americaninho nunca saiu desta casa! Ele foi levado para as dependncias de servio. Est l, na garagem, na lavanderia
ou no depsito de ferramentas. Na certa narcotizado!
        - E a bab...
        - A gorducha est encarregada de cuidar dele, Pris. Vai l toda hora para dar um olhada. Talvez para oferecer novas doses de clorofrmio para manter o sono
do anjinho!




      11. Talco e Laxante


        J. J. Bradford continuava falando sem parar ao telefone. Sua influncia parecia ser suficiente para abrir os cofres de qualquer banco.
        Do outro lado da sala,  vista de todos, do casal de pais desesperados e dos seqestradores, Gil e Pris ficaram combinando o que fazer. Se algum dos outros
se preocupasse em olhar para eles, pensaria que eram dois namoradinhos adolescentes conversando com a alegria dos excitados.
        Mas, pelo menos quanto a Gil, raramente algum se preocuparia com sua presena. Ele era "mdio", daqueles que passam despercebidos.
        E, agora, Gil queria passar despercebido.
        - Eu preciso de um pouquinho de farinha de trigo, de polvilho ou de maisena, Pris.
        - U! Para que isso?
        - Faz parte de uma idia que eu arquitetei. Voc conseguiria um pouco? No preciso mais de um punhado.
        - Vai ser difcil xeretar na despensa com a bab e o motorista l, plantados na copa...
        - Droga! Talvez a gente pudesse se virar com um pouco de talco que voc pegasse l em cima, no banheiro da americana. Mas talco  perfumado. O que eu preciso
 de um p branco, sem perfume nenhum!
        Pris conseguiu resolver o problema:
        - O Mark usa um talquinho de polvilho para assaduras que no tem cheiro nenhum. Est l em cima, na cmoda do quarto dele...
        - timo. V l e arranje um envelope de plstico pequeno, transparente. Ponha um punhadinho do talco do Mark dentro e me traga.
        Nesse momento, Oliveira levantou-se e entrou em uma porta que ficava logo aps as duas esttuas,  direita do corredor. Era o lavabo social.
        Gil sorriu. Uma idia deliciosa surgiu-lhe de repente.
        - Ser que l em cima, entre os remdios da casa, voc no arranjaria um pouco de purgante, Pris?
        - Purgante? Para qu?
        - Depois eu explico. Ser que voc consegue?
        - Consigo. Dona Nancy tem problemas de intestino. Ela usa um laxativo importado. Diz que tem um gosto delicioso, mas que s se pode tomar um pouquinho. 
forte demais...
        -  disso mesmo que eu preciso. Forte demais e com gosto delicioso!
        - Eu vou buscar...
        - Espere. Qual  o quarto que se abre para o telhado?
        - Na frente?  a suite do casal...
        - Muito bem. Nessa janela, voc vai montar a ltima ratoeira, para o caso de alguma das outras dar errado.
        - Ratoeiras?
        - Para ratos grandes. Vamos montar uma poro de ratoeiras em toda esta casa, Pris. Enquanto voc vai l em cima, eu vou at o lavabo, preparar outras ratoeiras.
Agora oua, Pris. Meu plano  este...

* * *

        Pris aproximou-se da americana, com a carinha mais inocente do mundo.
        - Dona Nancy, vou at l em cima, buscar umas coisas que eu deixei na mochila, est bem?
        - Claro, querida. Esteja  vontade...
        A menina subiu as escadas, enquanto Gil ia devagar, despreocupado, para o lavabo, que j havia sido desocupado por Oliveira.
        Entrou no lavabo e deixou a porta entreaberta. Da sala, ningum podia ver a porta, atrs das duas esttuas.
        O rapaz tinha um canivete incrementado, presente dos seus quinze anos recm feitos. Alm de lmina, abridor e saca-rolhas, o canivete tinha uma chave de
fenda. Desatarrachou os parafusos da fechadura e retirou o miolo. Mexeu na mola da tranca, deixando-a frouxa. Na primeira vez que algum virasse a tranca, a porta
no poderia mais ser aberta por dentro.
        "Esse  um risco que eu tenho de correr...", pensava ele. "O Oliveira j usou o banheiro. Espero que o J. J. ou a dona Nancy no precisem do banheiro antes
de o meu plano dar resultado..."
        Saiu do lavabo e viu Pris descendo as escadas. A garota reuniu-se novamente com ele no sof de sempre. Gil pegou sua mozinha, como se namorasse. Sentiu
o envelopinho de plstico. Guardou-o no bolso.
        - Agora, Pris, coragem. Vamos ao prximo passo...
        A menina acenou com a cabea.
        Gil perambulou um pouco pela sala e aproximou-se de uma mesinha, perto da porta de entrada. Ficou mexendo em umas revistas, como se quisesse escolher alguma
para passar o tempo.
        Pris voltou a subir as escadas, devagar.
        Quando estava quase no alto, respirou bem fundo e comeou o seu show:
        - Ai, Mark! O que fizeram com voc?
        Todas as pessoas que estavam na sala ergueram os olhos para Pris.
        E viram-na chorar e debater-se, agarrada ao corrimo, como se estivesse  beira de um ataque.
        Dona Nancy correu para l, seguida pelo marido. Norman, Dacosta e Oliveira foram atrs.
        - Pris! Calma, minha filha! O que est acontecendo?
        Da copa, o motorista e a bab apareceram, correndo tambm em direo  escada e juntando-se  confuso que j se formara.
        Gil desapareceu pela porta da frente. "Rpido! Preciso agir rpido!"
        Abaixou-se  frente do BMW e desparafusou freneticamente a chapa da frente. Em segundos, jogou-a atrs de uma moita de orqudeas.
        Voltou para a sala a tempo de ver aquela gente toda que tentava controlar os "espasmos" de Pris, que se debatia e arriscava-se a despencar das escadas.
        Correu para l, fazendo cara de preocupadssimo. Na mesma hora, Pris parou de debater-se e largou o corpo nos braos que a sustentavam.
        De olhos fechados, respirava profundamente.
        - Est melhor, querida? - perguntava dona Nancy.
        Com um fio de voz, a menina respondeu:
        -- Sim... acho que sim...
        O que aconteceu? Voc ficou nervosa. Acho que essa presso toda...
        - Anh... desculpe, dona Nancy... Mas o Mark...
        - Calma, querida, tudo vai acabar bem...
        Gil furou o bloqueio de todos aqueles corpos e u a garota.
        - Podem deixar. A Pris  assim mesmo. Muito nervosa, a senhora sabe. Mas eu j estou acostumado. Pode deixar que eu cuido dela. Vou lev-la at a cozinha.
Um pouco d'gua e tudo voltar ao normal...
        Apoiando-se nele, Pris voltou a descer as escadas. Aos poucos, os outros tranqilizaram-se.
        - Vamos - disse J. J. - Ainda tenho um telefonema para fazer.


      12. They aren't kidding!


        Depois que todos j tinham voltado para a sala, Pris e Gil foram para a copa, atrs do motorista e da bab.
        Ainda abraados, chegaram  mesa. Pris apoiou-se nela e Gil foi buscar o copo d'gua. Voltou por trs da mesa. Quando estava bem atrs da cadeira onde o
motorista voltara a sentar-se, piscou para a menina.
        Pris levou a mo  testa e cambaleou.
        - O que foi, Pris? - assustou-se a bab. - Est se sentindo mal de novo?
        Um suspiro e, mole como um saco de batatas,
        Pris desabou no cho da copa, desmaiada. Instintivamente, o motorista saiu da cadeira e abaixou-se, tentando impedir sua queda. A bab ajoelhou-se, nervosa:
        - Pris!
        Gil no precisou de mais de um segundo para enfiar a mo no bolso do palet do motorista, tirar de l a carteira de documentos, enfiar o envelope de plstico
com talco dentro dela e rep-la no lugar.
        Logo estava tambm abaixado, "preocupadssimo" com a menina.
        - Pris, calma, eu estou aqui!
        A garota abriu os olhos e pareceu recompor-se rapidamente.
        O rapaz apoiou suas costas e ajudou-a a levantar-se.
        - Acho que so seus ataques de epilepsia que voltaram, querida...
        - Nada disso, Gil. Eu j estou bem. Acho que s um pouco fraca...
        A bab achava-se no direito de aconselhar:
        -  essa mania de vocs, meninas, viverem fazendo regime. Isso faz mal  sade, Pris! Voc precisa comer direito!
        "Ah!", riu-se Gil, por dentro. "Para os gordos, a comida  soluo pra tudo. Para ns, os magrinhos, vai ser mesmo a soluo!"

* * *

        Da copa, ouviram a campainha do telefone.
        Os dois jovens voltaram apressados para a sala.
        J. J. j tinha atendido e Oliveira ligava o gravador, enquanto Dacosta sacava o celular e sussurrava, fingindo que pedia para que a ligao fosse localizada.
        - Sim! - falou J. J., ansiosamente. - Meu irmo sair agora mesmo para buscar o dinheiro que vocs pediram. Por favor, tenham pacincia e no faam nada
com o meu filho... No, eu no tenho tudo isso em depsitos e aplicaes, mas meu irmo vai levantar o que falta, tomando emprstimos bancrios em meu nome. J assinei
as procuraes para ele e... Como? Uma fortuna como essa no estar disponvel antes das duas da tarde... Est bem. Eu fico aguardando uma nova ligao. Mas, por
favor...
        Deviam ter desligado do outro lado da linha. O americano deixou cair o aparelho no tapete.
        - Eles vo telefonar de novo, s duas horas, dizendo onde o resgate deve ser entregue. S depois devolvero meu filho...
        Dacosta pavoneou-se:
        - Quando seu filho estiver so e salvo, a brincadeira ficar por minha conta! Prometo ao senhor que, at o fim da tarde, trarei seu dinheiro de volta e trancarei
esses bandidos. Eles vo apodrecer na cadeia!
        Pris olhou de lado para Gil.
        No precisaram falar nada.
        Os dois sabiam que, quando J. J. ligasse para o celular do irmo informando o "local" onde o resgate deveria ser entregue, este seria o sinal combinado entre
os bandidos e o seqestro teria chegado ao fim. Norman esconderia o dinheiro e voltaria para a casa, continuando a encenao.
        Dacosta, Oliveira e Carlo sairiam para "perseguir" os seqestradores e desapareceriam.
        Tudo estaria acabado.
        Mark "reapareceria", como ' por encanto, provavelmente deixado na porta da casa, e J. J. nunca mais veria a cor da fortuna que levaria o resto da vida para
pagar aos bancos.
        Norman Bradford estava de p, ao lado do irmo. Apertou-lhe o ombro com fora e tentou confort-lo:
        - Calma, Jake. Vou sair agora mesmo com as procuraes. No mximo em duas horas sacarei todo o resgate.
        - Faa tudo o mais rpido possvel, irmo - pediu j. J., j no limite das prprias foras. - It's not a joke! Those kidnappers aren't kidding!
        Norman preparou-se para sair.
        - Deixe tudo comigo, Jake. Vamos salvar meu sobrinho. Nancy, eu preciso de malas grandes, para levar todo esse dinheiro.
        - Pode deixar que eu vou buscar as malas l em cima - dona Nancy dirigiu-se apressada para as escadas.
        Dacosta recomeou com as ordens:
        - Meu investigador, o Carlo, vai junto com o senhor e o motorista, senhor Norman. No quero surpresas!

* * *

        Gil olhava pelas frestas da cortina quando viu o motorista baixinho dar a partida no BMW e sair, levando o Carlo e Norman Bradford.
        O rapaz sorriu.



      13. Deliciosos sanduches


        - Parece que a bab adivinhou nossa idia, no , Pris?
        A menina no respondeu. Sorriu para ele e dirigiu-se para onde estava o casal de americanos e Dacosta.
        - Dona Nancy, desculpe, mas, se a senhora quiser, eu posso preparar uns sanduches...
        A americana levantou os olhos e devolveu o sorriso. Conseguia manter-se educada, mesmo vivendo uma presso como aquela:
        - Oh,  mesmo! J passou da hora do almoo e vocs jovens devem estar com fome. Esteja  vontade, Pris.
        Gil j esperava pela garota, na copa. A bab no estava. Devia ter ido dar mais uma dosezinha de narctico ao menino.
        Pris pegou o que precisava na geladeira, principalmente o grande pote de maionese, ingrediente principal do plano.
        Abriu um pacote de po de frma e separou oito fatias, para quatro sanduches.
        Gil derramou uma boa quantidade de maionese em um prato fundo.
        Do bolso da cala, Pris tirou um frasco, com um lquido leitoso, cor-de-rosa. Despejou-o fartamente sobre a maionese.
        Gil misturou bem a maionese e o lquido. Depois, passou a mistura nas duas faces de quatro das oito fatias de po.
        A menina montou os quatro sanduches com queijo e presunto. Dois deles receberam maionese normal, sem o lquido cor-de-rosa.
        Tudo pronto. Dois sanduches em cada prato. Num deles, dois com maionese "especial". Este ficou com Gil.

        ***

        J. J. era um presidente de empresa. Homem duro, forte, bom negociador, dono da alma rija dos grandes capitalistas. Mas, depois que todas as providncias
para o pagamento do resgate tinham sido tomadas, o cansao o venceu. Afundou-se no sof, exausto, olhando fixamente para a frente.
        - Mark is our only son, Nancy, my dear... I don't know what I'll do without him...
        A esposa, forte tambm, controlada, escondia sua ansiedade sob um falso sorriso confortador. Alisou os cabelos do marido e sussurrou:
        - Don't think about that, fake, please! Mark will be fine. Those people only want the money. They'll give back our little boy...
        - I hope you're right, darling... I hope... Now, all we can do is wait...
        Do lado do sof, sem entender nada do que os americanos diziam, Dacosta estava calado. Sua expresso era tensa,  espera do desenlace de seu plano diablico.

        ***

        Pris entrou na sala primeiro, estendendo o prato para a americana.
        - Dona Nancy, eu preparei estes sanduches para a senhora e para mister J. J...
        - Hum? Oh, obrigada, Pris. Mas no estamos com fome.
        - Est bem. Vou deixar os sanduches aqui, na mesinha...
        Gil vinha em seguida e estendeu seu prato para Dacosta.
        O delegado grandalho pegou um dos sanduches, sem falar nada.
        Gil fez meia volta e estendeu o sanduche restante para Oliveira.
        O detetive pegou-o com avidez. Em um segundo, j havia abocanhado metade.
        Os dois jovens voltaram calmamente para seu sofazinho.
        - Agora, Pris, a sorte j est lanada. No d mais para recuar...
        - Boa sorte, Gil. Vou agora para a cozinha.
        - Boa sorte, Pris. Voc acha que pode dar conta? - Deixe comigo, querido...
        "Querido! Ela disse querido!"

        ***

        Oliveira j tinha devorado seu sanduche. Olhou em volta, aparentemente insatisfeito.
        Gil tentava fazer a cara mais inexpressiva possvel, mas seus olhos no desgrudavam de Dacosta.
        O grandalho estava mudo,  espera do momento em que o comparsa telefonaria e ele poderia ligar para o celular de Norman Bradford, concluindo o que haviam
planejado.
        Deu uma mordida no sanduche e fez uma careta. - Como  que se pode pensar em comer, numa hora dessas?
        Ainda mastigando, largou o sanduche, sem preocupar-se sequer com a sujeira da maionese rosada que logo manchou o mogno do tampo da mesinha que ficava ao
lado da ampla poltrona onde se instalara.
        "Inferno!", praguejou Gil, por dentro. "O danado no vai comer? E o que  que eu fao contra um grandalho desses?"

        ***

        Nem haviam se passado dez minutos e metade do plano de Gil comeou a fazer efeito.
        Em meio ao silncio de expectativa que dominava o casaro dos Bradford, ouviu-se um sonoro, um retumbante...
        Pum!
        Oliveira levantava-se, apertando a barriga com as duas mos. Estava plido e verde como uma alface. Meio cambaleando, correu em direo ao corredor das estatuetas,
em direo ao lavabo. Gil ouviu o rudo da fechadura.
        Tlec!

        ***

        Quando a bab entrou novamente na cozinha, encontrou Pris, plantada  frente dela. E estranhou a expresso da jovem baby sitter.
        - O que foi, Pris?
        Os olhos da menina fuzilaram-na: - Quieta, nanny! Eu j sei de tudo!
        A gorducha arregalou-se toda e balbuciou: - S-sabe? O qu? O que  gu1e houve?
        Pris no pesava nem a metade da bab, mas avanou o corpinho, dando a volta e caminhando de modo a fazer a mulher recuar.
        - Pris! O que  isso?
        - Calada, caladinha, sua seqestradora nojenta!
        A mulher empalideceu. Seus lbios tremiam.
        - Eu? No! Pris, por favor, eu no queria...
        - L pra dentro! - ordenou Pris, com uma voz mais dura do que se estivesse empunhando uma arma.
        Caminhando duramente, Pris forava a bab a recuar em direo  porta da despensa. A mulher comeou a chorar:
        - No, Pris! Me perdoe! Eu...
        - E no chore! E no faa nenhum barulho! Calada! Entre na despensa!
        O corpo gordo da bab tremia como gelia. A mulher entrou de costas na despensa, sem mais nenhum protesto.
        - Fique a dentro! E no faa nenhum barulho! Ai de voc se algum desconfiar que at um ratinho pode estar bulindo na despensa!
        - Eu... eu...  claro, Pris...
        A menina fechou a porta. Apoiou o espaldar de uma cadeira na fechadura e forou-a.
        Correu para a porta dos fundos.
        De dentro, ouvia-se as pancadas de Oliveira, que esmurrava a porta do lavabo.


      Capitulo 14 O ltimo rato

        - Chefe! Esse raio de porta no quer abrir! Oliveira esmurrava a porta violentamente. Dacosta correu para l:
        - Quieto! O que  isso? Quer chamar a ateno do bairro todo, seu idiota?
        De dentro, vinha a voz de Oliveira:
        - Mas, chefe, esse raio de porta parece que emperrou. No consigo abrir!
        - Espere! Fique quieto!
        Dacosta forou o trinco do lado de fora, mas a tranca j estava sem a mola e nada mais podia ser feito.
        - Seu Bradford! - chamou Dacosta. - Onde  que tem uma chave de fenda? Essa porta emperrou! J. J. e a mulher aproximaram-se, sem entender o que tinha acontecido.
        - O que houve, delegado?
        - A porta do banheiro. Meu investigador no consegue abrir por dentro. Preciso de alguma ferramenta...
        De dentro do lavabo, com o pnico de um rato na armadilha, Oliveira gritou:
        - Saia da frente, chefe. Vou arrebentar esse troo a tiros!
        Sem pensar no que dizia, Dacosta tentou controlar seu comparsa:
        - Fique quieto, imbecil! Se algum ouvir um tiro, estamos perdidos!
        J. J. Bradford estranhou:
        - O que quer dizer com isso, delegado Dacosta? Perdidos por qu?
        Quando o bandido caiu em si e voltou-se, para tentar consertar a vacilada, seus olhos encontraram-se com os olhos de Gil.
        O rapaz estava de p, sorrindo, ainda dentro da sala, uns passos antes das estatuetas de mrmore.
        Falou calmo, mas falou claro e alto:
        - Fale para o senhor Bradford, "delegado" Dacosta. Conte a ele sobre o seqestro do pequeno Mark...
        Dacosta no entendeu direito o que estava acontecendo. Inseguro, seus olhos saltavam de Gil para o americano, do americano para Gil.
        - O qu? O que  isso? O que  que voc est tentando dizer, seu... seu... Como  mesmo o seu nome?
        O rapaz parecia seguro como uma rocha. Sorria, e quase gritava de orgulho:
        - Meu nome  Gil, seu seqestrador barato! GIL! Voc nunca mais vai esquecer esse nome: GIL! Voc ter todo o tempo do mundo para lembrar-se do meu nome.
Do nome de quem arrancou sua mscara!
        Dacosta continuava tentando retornar o curso do jogo para o seu lado...
        - Esse moleque ficou louco, senhor Bradford?
        ... quando, da porta da cozinha, surgia Pris, carregando um cobertor de l. Na extremidade do cobertor, junto ao seu ombro, uma cabeleirinha de cachos louros!
        - Mark! - gritou Nancy Bradford, correndo para o filho, adormecido nos braos de Pris.
        Num instante, duas cabeas entenderam tudo. Dacosta, que estava descoberto. E J. J. Bradford.
        - Maldito moleque! - ameaou Dacosta. - Vou acabar com voc!
        O corpo grande e magro de J. J. interps-se entre Gil e Dacosta.
        Engalfinharam-se, com Nancy Bradford gritando.
        J. J. era alto, mas no era preo para o grandalho. Dacosta, policial e bandido formado no crime que combatia e cometia, sabia usar da violncia fsica
com categoria.
        Livrou-se do ataque do americano num repelo e acertou-lhe um soco demolidor, de baixo para cima.
        J. J., desequilibrado, recuou.
        Outro soco pegou-o no caminho e o americano desabou como um pugilista  beira do nocaute.
        - Jake!
        Dacosta parecia ter um tomate sobre os ombros. E foi esse rosto avermelhado que se desviou do adversrio abatido e voltou-se para Gil.
        - Agora  voc, fedelho!
        Gil recuava, agilmente, de costas, provocando: - Fedelho? V se acostumando, bandido. Meu nome  Gil. Gil! O nome que voc lembrar a cada um dos dias de
todas as dcadas que vai mofar na cadeia!
        O bandido avanou, furioso.
        Mais gil, Gil driblou sua investida e correu para as escadas. Tinha de levar o rato para a ltima ratoeira. A mais arriscada. A que tinha poucas chances
de dar certo.
        Dacosta sacou o revlver e correu atrs.
        Gil, seguindo a descrio de Pris, correu direto para a sute do casal Bradford.
        - Venha, bandido! Meu nome  Gil! - Moleque! Maldito! - Repita comigo: Gil!
        Embarafustou-se pelo quarto e, agilmente, saiu pela janela. Alcanou o telhado e caminhou por ele, distanciando-se da janela, com a maciez de um gato.
        Dacosta entrou na sute a tempo de ver o garoto sumindo pela janela.
        Correu para l e estendeu o brao com a arma para fora.
        Gil no estava  vista. - Demnio de fedelho!
        No pensou nem um minuto nas conseqncias e forou o corpanzil para fora da janela, apoiando o p nas telhas.
        Era essa a ltima ratoeira bolada por Gil e preparada por Pris.
        As telhas estavam todas soltas e o peso do bandido fez o resto.
        Dacosta escorregou como uma pedra solta na ribanceira, telhado abaixo!

        ***

        Com a maior calma do mundo, como se passeasse num parque, Gil veio caminhando pelo telhado. Abaixou-se na beirada.
        L estava Dacosta, agarrado desesperadamente ao cano da calha.
        Os olhos dos dois encontraram-se novamente. S que, desta vez, a posio de cada um havia se invertido.
        O grandalho, plido de medo, balbuciou: - Gil, por favor... Me ajude a sair daqui! O rapaz sorriu.
        - Oh, oh, quer dizer que agora voc sabe o meu nome? Vamos, diga de novo: como eu me chamo?
        - Gi-Gil...
        - Outra vez!
        - Gil!
        - Mais alto!
        - No brinque, Gil, por favor...
        - Eu no estou brincando, Dacosta. Eu no brinquei em nenhum momento, toda esta manh.,.
        Baixou o brao em direo ao bandido. Mas, em vez de agarr-lo, enfiou a mo em seu bolso e sacou de l o telefone celular de Dacosta.
        - Qual  mesmo o nmero do telefone da Diviso Anti-Seqestros, Dacosta?
        Gaguejando, o mau policial respondeu.
        - timo, agora voc est colaborando - cumprimentou Gil, digitando o nmero. - E qual o nome de um delegado de l? Um dos bons. Um que jamais entraria em
jogadas como a sua?
        - Chame... chame o doutor Cintra...
        Gil aguardou at que atendessem e at que o doutor Cintra fosse localizado.
        Palavra por palavra, explicou tudo o que tinha se passado na manso de J. J. Bradford, desde aquela madrugada. E rematou:
        - Ah, uma ltima coisa, doutor Cintra: No caminho para c, prenda um sujeito que est trepado em um poste aqui, quase na esquina. Est esperando l, para
dar um telefonema, coitado... Acho que, agora, ele s vai poder falar no telefone para chamar seu advogado, no ?
        Desligou e, ainda com a maior calma, recolocou o aparelho no bolso do palet do bandido, pendurado como um gordo e velho macaco no galho.
        - Gil, eu no agento mais... Eu... eu no estou me sentindo bem...
        - Agente, Dacosta. So s uns quinze minutos... Logo, logo a polcia vai chegar para libert-lo da.  claro que esse  o nico tipo de liberdade com que
voc pode sonhar daqui para a frente, no ?
        Sem poder mais se conter, o bandido soltou o seu mais sonoro...
        Pum!
        O garoto estava de p, na beirada do telhado, rindo como se estivesse num circo:
        - Oh, que pena, Dacosta! Voc s comeu um pedao do meu sanduche especial. O efeito demorou um pouco, mas no falhou! Alivie-se, Dacosta!


        Capitulo 15 Uma ou duas pessoas...

        A notcia daquele seqestro foi um prato cheio para o jornalismo sensacionalista. Tanto os programas populares de televiso como os noticirios de jornal
exploraram gostosamente cada detalhe daquela manh incrvel.
        Norman Bradford, tesoureiro da multinacional de onde o irmo era presidente, planejara o seqestro do prprio sobrinho, pois praticara desfalques na firma
que estavam quase sendo descobertos pelo irmo. Metera-se em especulaes financeiras desastrosas e o desespero levara-o quele gesto enlouquecido. Teria muito tempo
para pensar sobre tudo isso, cumprindo a longa pena a que seria certamente condenado, juntamente com os maus policiais que haviam aceitado ajud-lo naquele crime.
        Em cada canto, comentava-se entre gargalhadas a priso de Norman Bradford. O BMW tinha sido parado por um policial rodovirio, quando os trs bandidos tentavam
escapar para o Paraguai, porque estava sem a chapa da frente. O motorista baixinho, certo de livrar-se do contratempo com facilidade, obedeceu ao guarda e entregou-lhe
obedientemente a carteira de documentos. Ao deparar com aquele envelope plstico com um pozinho branco, o policial deu imediatamente voz de priso a todo o bando.
Em seguida, comentava-se a surpresa da polcia rodoviria, ao encontrar, no porta-malas do BMW, malas abarrotadas de dlares! Depois, riam tambm da cara da prpria
polcia, quando eles descobriram que tinham apanhado uma quadrilha de seqestradores ao confundirem um talquinho de bumbum de nenen com cocana...
        Assunto de riso era tambm a descrio do triste estado em que encontraram Dacosta, pendurado em um cano de calha, chorando de medo e com as calas todas
borradas! Diziam at que os policiais tiveram de dar um banho no homem antes de lev-lo para a cadeia...
        Mas era com respeito que todos comentavam a incrvel atuao dos dois adolescentes que, sozinhos, tinham descoberto toda a trama e, tambm sem a ajuda de
ningum, tinham conseguido prender o bando inteiro.
        Um nome aparecia nas manchetes de todos os jornais: Gil.

        ***

        No colgio, a manh seguinte ao seqestro foi uma confuso dos diabos.
        Reprteres cercavam a escola desde o amanhecer. Cmeras de tev espalhavam-se por todos os lados e qualquer aluno que tivesse alguma coisa para contar sobre
Pris e sobre aquele incrvel Gil conseguiu aparecer nos noticirios.
        Mas Gil sabia como fugir da escola, pulando o muro no ponto onde o bedel no tinha como vigiar. Foi assim que ele e Pris conseguiram livrar-se dos reprteres.
        Furtivamente, deram a volta no quarteiro e logo estavam longe, sentados em uma lanchonete, gozando as delcias do anonimato. Naquela lanchonete, no havia
ningum que se lembrasse da cara deles e era possvel tomar um milk-shake calmamente.
        A mo da menina apertava a de Gil e seus olhos no se desviavam, enlevados, do sorriso bonito e aliviado do rapaz.
        - Ufa! Depois de tudo isso, a gente precisa de um pouco de calma, no , Pris?
        - Que bom que o Mark est timo, no, Gil? - comentou Pris. - O casal Bradford est feliz que no se agenta. Eu morria de medo que o menino ficasse com
alguma fraqueza depois de todo aquele clorofrmio que a danada da bab estava dando para ele!
        - Tudo acabou bem, Pris. Muito bem...
        - E o que voc vai fazer com a recompensa que mister J. J. vai dar a voc?
        - Ah, eu no quero recompensa nenhuma. O que eu vou ter na vida eu mesmo vou conquistar. Fiz o que tinha de fazer. S isso.
        A garota sorriu:
        - Por que voc no est gostando dessa badalao toda, querido? Voc no queria provar a todo mundo do que voc  capaz?
        Gil respondeu seriamente, olhando fundo nos olhos da garota que ele tanto queria. E que agora estava a seu lado.
        - No, Pris. Somente a uma ou duas pessoas.
        - ? E quem so essas pessoas?
        - Uma sou eu. Eu precisava mostrar, para mim
        mesmo, que eu sou mais eu...
        - E a outra?
        - A outra  voc...
